O Eclesiastes de Vinicius

29 - dezembro, 2008

Entender a vida e como vivê-la é o grande tema da jornada humana. Por quê? Pra quê? Será que vale?

Essa canção de Toquinho e Vinicius fornece uma resposta interessante. É como um rascunho ou quem sabe uma penumbra do Eclesiastes.

Aproveite a canção, e mais um feliz ano novo debaixo do sol.


#6: caminhar com os olhos e pés distantes do Reino de Deus.

27 - dezembro, 2008

Não vêem* porque não querem. Ou porque desconhecem. O Reino de Deus é um conceito muito etéreo nas mentes da liderança cristã brasileira.

Vamos aos conceitos mais comuns por parte deles:

Argumento: O Reino de Deus virá na consumação dos tempos quando estivermos todos no “céu e na glória” (Ele reinará SÓ no céu).

Ação: como está bem longe na eternidade, não nos preocupemos com o aqui e agora. O importante é catequizar todos para que cheguem ao céu (abrir igrejas-filiais, comprar emissoras de TV, aparecer no Raul Gil).

Argumento: o Reino de  Deus proclamado por Jesus se manifesta apenas em nossos corações (o Reino não é desse mundo).

Ação: Jesus reina APENAS no meu interior. O importante é ser puro de coração e o resto é resto.

Argumento: o Reino de Deus apenas virá quando existir paz e segurança para todos os homens.

Ação 1: a instituição do Jesus Rei depende da nossa ação para que haja paz e justiça social em todo mundo (versão Teologia da Libertação).

Ação 2: a instituição do Jesus Rei depende da nossa ação para evangelizar todas as pessoas do mundo (versão Congresso de Missões).

Como bom corneteiro não vou tentar definir o conceito e principalmente a prática do Reino de Deus. A verdade é que não tenho competência ainda para realizá-lo. É preciso uma boa análise hermenêutica do Sermão do Monte, das Parábolas do Reino nos Evangelhos e no desenrolar da gênese da Igreja no livro dos Atos dos Apóstolos. Não obstante, um estudo denso e abrangente na Teologia do Antigo Testamento a cerca do Reino e do Retorno do Rei para desenrolar esse novelo teoloógico.

É uma pena que grande parte dos líderes das comunidades bem intencionadas são companheiros na minha Santa Ignorância. A preguiça hermenêutica de nossa liderança leva a igreja a uma miopia de sua real missão e vocação como Comunidade dos Salvos. Sem missão não há visão, sem visão não há ação prática. Adoração e serviço perdem seu sentido e conexão. Quando muito, fazem parte de uma tradição litúrgica sem vida.

A miopia de uma liderança impede que todo o resto da comunidade trilhe o caminho em direção ao Reino de Deus. Fatalmente o Corpo que perde sua real vocação transforma-se num organismo “obeso  em si mesmado”. De forma sincera e zelosa afogam-se no fardo da religiosidade observando novamente datas, festas e tradições sepultadas.

É o cachorro correndo atrás do rabo.

 

* Ainda posso escrever com o acento até 2013


O pior de 2008

22 - dezembro, 2008

O pior café do ano:

Pior de 2009

Pior de 2008

Não postei na época porque quis apagá-lo da memória. Como agora é tempo de retrospectivas e Roberto Carlos na TV Globo, resolvi lembrar desse momento de infâmia.

Se algum dia você estiver na sede da Folha de São Paulo na Barão de Limeira, evite o espresso que é servido em sua cantina no último andar.

Ácido, ralo e mal torrado. O fundo da xícara parecia um ninho de barata de tanto pó! Um misturado de terra com cocô e borra do Starbucks deve ser mais agradável.

Meus caros colegas de trabalho preferiram o café de mentira da Nescafé. Eu escolhi brincar de gastrite a tarde inteira.


Mas como filhos dessa dama

18 - dezembro, 2008

Nosso amado presidente  Luis Fala Fácil da Silva vai virar filme. Comédia, tragédia, romance, aventura, ação? Porno-chanchada?

http://cinema.cineclick.uol.com.br/noticias/index.php?id_noticia=21651

Nunca na história desse país babaram tanto ovo sobre um presidente. Lula pode dar um fora como no caso “sifu”, pode ser pego de calças na mão no caso do mensalão ou ainda ser filmado falando um baita de um palavrão. Nada cola no ilustríssimo companheiro. Por quê?

Porque no fundo gostamos de Lula. Ele nos representa como ninguém.  Bebe demais? Todos bebem e até dirigem assim. Mente descaradamente ao falar que “não sabia de nada”? Ah, quem não conta uma mentirinha de vez em quando… Não estudou mais do que a quarta série? Essa coisa de estudo não leva a nada, quem é bom mostra a que veio na hora H!

É assim que nós brasileiros pensamos. Não estou falando de inconsciente coletivo ou arquétipo cultural (acho isso uma grande besteira), mas sim de que o nosso povo é bem ruizinho mesmo.

Concordo com o título do filme: “Lula, o Filho do Brasil”. Ele realmente é o filho mais ilustre deste país. Tem a nossa cara de brasileiros João sem braço. A mãe de Lula não é a ótima atriz Glória Pires (Xícaras?) como no filme, mas a pátria-mãe brasileira. É como aquela música do Ultraje a Rigor:

“Mas como filhos dessa dama, que você sabe como se chama …”


Um show de Truman

2 - dezembro, 2008
Nosso mundo é recheado de gente besta! Necessitados, mas bestas!
Retirado da Folha de São Paulo na URL:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u473451.shtml
Em 01/12/2008
A síndrome de Truman

A epidemia do século 21 já tem nome: “Síndrome de Truman”. O nome pertence a filme de 1998, “The Truman Show/ O Show de Truman”, com Jim Carrey no papel principal. Não lembram? Eu lembro: o personagem de Carrey era um simpático vendedor de seguros que, gradualmente, descobre a fraude existencial que o envolve. A sua vida, desde o berço, é apenas um gigantesco “reality show”, filmado por câmeras ocultas 24 horas por dia. E todas as pessoas que o rodeiam –mulher, família, vizinhos, amigos e inimigos– são meros actores contratados para representarem seus papéis.

O filme termina em registro heróico, com Carrey a libertar-se do pesadelo, ou seja, abandonando o estúdio onde viveu encerrado (e filmado) durante décadas.

Acontece que o pesadelo já emigrou para a realidade. Leio agora na imprensa do dia que cresce assustadoramente o número de pessoas que acredita genuinamente que a vida não lhes pertence. Pertence a um produtor televisivo que montou uma gigantesca ilusão em volta. Como no filme de Jim Carrey, esta gente-se sente-se vigiada por câmeras imaginárias e olha para as respectivas vidas como se apenas estivessem a cumprir um roteiro pré-escrito.

Não confiam na família. Não confiam nos amigos. Não confiam em ninguém. E há mesmo casos de tentativas de suicídio por criaturas transtornadas que não aguentam “continuar” no “show”. Uma das histórias mais pungentes pertence a um anónimo norte-americano que, cansado de “representar”, entrou num edifício do governo federal e implorou, de joelhos, para que desligassem as câmeras e terminassem com o programa. Ele queria, simplesmente, sair.

E os médicos? Os médicos têm uma palavra importante, a começar pelos psiquiatras. Mas, como os próprios admitem, o caso não é simples de resolver. Desde logo porque eles próprios são vistos pelos pacientes como parte do engodo. Os médicos não são médicos. São atores, vestidos de bata branca, que tentam convencer o doente de que ele está doente.

Não pretendo levantar polémicas inúteis. Mas, confrontado com a epidemia, eu próprio duvido da doença dos doentes. E pergunto, inteiramente a sério, se eles não serão as únicas pessoas lúcidas no meio da loucura reinante.

Um pouco de história talvez ajude: durante séculos, a posição que ocupávamos em sociedade era determinada pelo berço em que nascíamos. Nascer no berço errado, em circunstâncias de pobreza material e cultural, era meio caminho andado para uma vida igualmente pobre e lúgubre. Existem todas as exceções do mundo, claro. Mas as exceções apenas servem para comprovar a tese: a nossa posição em sociedade era uma questão de sorte, não de mérito.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, e o enterro do Velho Mundo que o conflito arrastou consigo, tudo mudou. O berço continuou a ter palavra importante. Mas não mais decisiva. O mérito passou a determinar o nosso lugar em sociedade. Em teoria, e sobretudo na prática, seria possível, ao filho de um pobre, entrar nos salões de um rico. Bastava, para isso, que o pobre ganhasse o dinheiro necessário para os comprar. As nossas sociedades são a prova provada de que a meritocracia vingou e que o “self-made men” derrotou grande parte dos preconceitos de classe.

E hoje? Hoje, como escreve Toby Young em recente ensaio para a revista “Prospect”, a era meritocrática foi enterrada. Depois do berço e do mérito, chegámos à era da celebridade. Podemos nascer no berço certo; podemos até subir a corda social com os nossos próprios pulsos, provando o nosso valor intrínseco; mas se não somos “famosos”, ou seja, se não alimentamos o voyeurismo coletivo em que vivemos, não somos rigorosamente nada. Vivemos em sociedades mediatizadas e massificadas. E numa sociedade mediatizada e massificada, é o anonimato, e não a pobreza ou a incompetência, que pesa profundamente sobre a espécie.

Não é de admirar, por isso, que uma parte crescente de seres humanos se sinta cansada do circo instalado; se sinta cansada, enfim, de um mundo de celebridades ocas que, na verdade, parece um “reality show” permanente. Eles imploram para sair do espetáculo na impossibilidade de o derrotarem.

Loucos? Não sou médico. Sou apenas um colunista disfarçado de médico. Mas desconfio que existe mais sanidade na loucura dessa gente do que em todos os “reality shows” que rodeiam as nossas vidas.

  João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha OnlineE-mail: jpcoutinho@folha.com.br
Site: http://www.jpcoutinho.com 

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