The shack – A cabana caiu

Recebi a recomendação de um livro chamado “A Cabana” (The Shack, publicado em português pela Ed. Sextante) de William P. Young. Quando vi do que se tratava imaginei que devia ser um folhetim desses bem melados no melhor estilão “Deus estrelado por Meg Ryan e Hugh Grant”. Imaginando o que poderia vir utilizei a minha abordagem “Paulo Coelho” de leitura. Ler em diagonal resistindo o máximo para chegar ao fim.

shack

Foi duro mas consegui. Senão desse certo teria usado a segunda abordagem mais radical e rebaixá-lo a categoria livro de banheiro. Nessas condições é mais fácil aguentar um livro ruim porque a concentração passa das letras às regiões mais inferiores e sensíveis.

O argumento do livro remete ao sofrimento de um pai que perdeu a sua filha assassinada por um maníaco. Desde esse episódio a sua vida familiar nunca mais foi a mesma. O relacionamento com os demais filhos é longínquo e ele não consegue mais ser sincero com a esposa.

O passado do pai (Mack) é atormentado por uma vida de lutas. Ele é narrado como um sobrevivente. O famoso “self-made-man” que os americanos tanto rascunham. O pano de fundo emocional remete a um relacionamento fracassado com um pai que o violentava e o tratava mal.

Cansou-se dos clichês? Tem mais um: Mack não consegue amar a Deus como Pai pois ele teve um pai violento. Logo, o problema todo resume-se a revolta de Mack contra Deus. 

O autor utiliza-se então de um encontro entre Deus e Mack onde a Trindade representada por uma mulher negra, um árabe negro e uma mulher-vento tentam explicar ao revoltado porque o homem sofre e resgatá-lo de sua tormenta. O que se  segue é uma sessão de “análise transcedental” entre o Deus-triuno de Young e Mack.

O que me incomodou no livro não foi o tom meloso-folhetinesco, ou a excentricidade de Young em retratar Deus. Sendo uma obra de ficção ele poderia se valer dessas figuras e linguagens (embora pessoalmente não ache adequado).

O problema é que o autor faz Teologia travestida de romance de auto-ajuda. Aí a coisa complica porque a real intenção de Young não é contar uma estória, mas comunicar verdades a respeito de Deus e do seu relacionamento com o homem e criação. Portanto, a crítica deve ser teológica mais do que literária.

E a sua teologia é contraditória, esquisita e totalmente anti-bíblica. Ruim mesmo! Deus é pintado como uma mãe que deixa os seus filhos fazerem tudo para na hora certa ensinar uma “lição de amor”. O processo de recuperação de Mack utiliza-se de Psicologia brava, do tipo freudiana e yungnesca (inventei essa agora). O revoltado é levado a visitar todos os episódios que “marcaram a sua vida” visando entendê-los e perdoar os que o magoaram. Interessante que o  estimulo de Mack para pedir perdão é bem menos enfatizado…

O livro também destila outros conceitos teológicos que os pós-modernos adoram como a inexistência do céu e do inferno, a relatividade dos valores e das verdades bíblicas e finalmente a igreja do tudo vale baseada nos relacionamentos (leia-se, baseada em nada):

— Eu estava vendo o céu quando vi Missy? Era muito parecido com isso aqui.

— Bom, Mack, nosso destino final não é a imagem do Céu que você tem na cabeça. Você sabe, a imagem de portões adornados e ruas de ouro. O Céu é uma nova purificação do universo, de modo que vai se parecer bastante com isso aqui.— Então que história é essa de portões adornados e ruas de ouro?— Esta, irmão — começou Jesus, deitando-se no cais e fechando os olhos por causa do calor e da claridade do dia —, é uma imagem de mim e da mulher por quem sou apaixonado.Mack olhou para ver se ele estava brincando, mas obviamente não estava.

O trecho acima ignora o final de Apocalipse, pois bem, para acabar tem um pouco de universalismo verbalizado pelo próprio Jesus:

 Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos. Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai, em irmãos e irmãs, em meus amados.— Isso significa que todas as estradas levam a você?— De jeito nenhum — sorriu Jesus enquanto estendia a mão para a porta da oficina. — A maioria das estradas não leva a lugar nenhum…

Deus é amor sem dúvida, do contrário não teria se manifestado na história de um povo rebelde e finalmente descido à Terra para ser morto como um bandido. Porém a sua soberania, poder e justiça não podem ser ignoradas incluindo a consumação de tudo que está aqui. Aconselho a leitura de Isaías para entender os dois lados: o Servo Sofredor e o Deus Eterno que vai virar a mesa para proclamar justiça!

Este livro tem sido recomendado por teólogos emergentes da moda e pastores moderninhos. Fiquei sabendo de onde?Adivinha?

Da IBAB claro!

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13 Responses to The shack – A cabana caiu

  1. Renato disse:

    Aonde você encontrou em Apocalipse que a eternidade será em outro lugar, que o céu não pode ser aqui com toda a criação restaurada? Obrigado.

  2. Renato disse:

    Que indício você encontrou em Ap. 21 ou em qualquer outro texto bíblico para essa sua argumentação – “O livro também destila outros conceitos teológicos que os pós-modernos adoram como a inexistência do céu e do inferno”?…Para mim, quando o autor argumenta o que você acima, ele está coerente com o texto, que, por sua vez, não fala de outro lugar, mas de uma NOVA terra, NOVO céu; algo NOVO não precisa se situar necessariamente em OUTRO lugar. E especifcamente neste texto de Ap. 21. 1 esse termo ‘novos’ e ‘nova’ são o termo grego “kaino.n” e “kainh,n” que, originalmente, significam ambos a mesma coisa: esse ‘novo’ se refere à existência de algo recente no mesmo local que o velho, e não em outro lugar, de acordo com o Greek-English Lexicon of the NT, Louw-Nida.

  3. Renato disse:

    Por isso, creio que o autor não está falando sobre a inexistência do céu ou do inferno. Pelo contrário, está falando da real existência dos mesmo.

  4. Renato disse:

    Também não sei se esse trecho demonstra universalismo. Aparentemente sim, mas ao mesmo tempo parece que ele está indo ao cume da doutrina magna do calvinismo – A Soberania de Deus (que está por tudo o livro, não foi ignorada não, de forma alguma). Pois é o Cristo que dá vida eterna ou o Cristianismo? Será que Ele [Jesus] não pode viajar por qualquer estrada [budistas, batistas, democratas, muçulmanos – vê a p. 169 da versão do livro em português; eu li em inglês, e essa parte está na p. 182 “Does that mean,” asked Mack, “that all roads will lead to you?” “Not at all,” smiled Jesus as he reached for the door handle to the shop. “Most roads don’t lead anywhere. What it does mean is that I will travel any road to find you”]. Acho que é complicado para nós pensarmos que Jesus não era cristão. Isso para mim é pura Soberania de Deus, algo com a qual não estamos muito acostumados, pois achamos que tal doutrina se refere apenas ao poder e à justiça de Deus. Não! Ele é Soberano em TUDO. A salvação está em Cristo e não no Cristianismo – Isso não é universalismo, são fagulhas de um Deus Soberano.

  5. Renato disse:

    Creio que quanto à forte atitude anti-instituição (atitudes essas colocadas como de Deus) do autor é consequência da sua cosmovisão. É preciso discernimento e bom senso. Como um bom leitor que você parece ser, sabe que não é nada justo citar porções de um texto fora do seu contexto e tirar conclusões estranhas. O livro tem preciosidades e é injusto, grosseiro e ignorância dizer isso: “E a sua teologia é contraditória, esquisita e totalmente anti-bíblica. Ruim mesmo! Deus é pintado como uma mãe que deixa os seus filhos fazerem tudo para na hora certa ensinar uma “lição de amor”.
    Há um momento no texto em que o personagem principal está tendo uma conversa com Deus e insinua que Ele parece não se encaixar em um certo modelo. A resposta de Deus é: “Entendo como tudo isso deve deixar você desorientado, Mack. Mas o único que está pretendendo ser alguma coisa aqui é você. Eu sou o que sou. Não estou tentando me encaixar em modelo nenhum.” Anti-bíblico é tentar colocar Deus numa caixa e ditar como Ele é e o que Ele faz!
    Se for possível, gostaria de suas respostas pelo e-mail renato_ipb@hotmail.com
    Grande abraço.

  6. Renato disse:

    Você diz: “Deus é amor sem dúvida, do contrário não teria se manifestado na história de um povo rebelde e finalmente descido à Terra para ser morto como um bandido. Porém a sua soberania, poder e justiça não podem ser ignoradas incluindo a consumação de tudo que está aqui. Aconselho a leitura de Isaías para entender os dois lados: o Servo Sofredor e o Deus Eterno que vai virar a mesa para proclamar justiça!” Uma interpretação desse trecho de acordo com o contexto dá a clara ideia de que o amor ficou como um adendo e a justiça como o apse da história. Não é assim o que diz a teologia reformada calvinista. O amor é a base para todas as coisas – a justiça não virá, pois ela já foi feita na batalha decisiva (a vitória de Cristo sobre a morte), que, por sua vez, garantiu desde já a vitória de Cristo sobre a Batalha Final – esta já esta vencida. E foi vencida por um ato de amor. Os verdadeiros cristãos proclamam o Servo Sofredor e as implicações que tal fato tem para o mundo. E, como consequência, a justiça está sendo proclamanda àqueles que não o aceitarem. Porém, não precisamos partir da justiça, pois não foi para isso que Cristo nos comissionou…Mas para levar as boas novas…E é isso que A Cabana retrata: o amor de um Deus que se relaciona conosco assim como somos, mas que nos ama absurdamente para nos deixar ficar da mesma maneira….E não primariamente de um Deus que virá para virar a mesa e proclamar justiça, mesmo que isso seja consequência óbvia do amor. Deus nos chama pelo amor e nao pela justiça e é assim que chama a todos…

  7. Renato disse:

    Ah, uma última coisa, apenas por curiosidade. O que você considera “teólogos emergentes da moda e pastores moderninhos”?

  8. […] estou sozinho na Cabana O livro “A Cabana” de William P. Young é um fenômeno editorial daqueles que está sendo vendido até em posto […]

  9. Ana Maria disse:

    Finalmente alguém sensato que não fica se debulhando em lágrimas com essa chatura de auto ajuda…
    Li este livro por indicação de várias pessoas cristãs e fiquei chocada ao me deparar com a quantidade de absurdos antibiblicos encontrados nele. E mais chocada ainda com a falta de discernimento dos crentes de hoje. É Satanás se apresentando como anjo de luz e fazendo os eleitos de bobos.

  10. Morgan disse:

    O livro não tem nada de anti-bíblico, antes pelo contrário. Apela à compreensão individual da Criação (Vida) como forma de promover e valorizar o relacionamento colectivo. As dúvidas que tantas vezes afloram os nossos pensamentos, as certezas que outras tantas vezes nos mostram o caminho errado são aqui traduzidas como consequência da tão desejada “independência” religiosa, política e económica que manipulam as nossas vidas e nos fazem construir muros em vez de pontes e nos mantêm “protegidos” de um futuro incerto mas devastador para quem não se cingir às regras. Valorizar as relações de amizade ou de amor sem esperar nada em troca, regozijar-se com o sucesso e felicidade dos outros são princípios tão fáceis de adoptar mas tão difícil de encontrar… e porquê? Não sou religiosa, nem frequento a igreja, tenho crenças e dúvidas mas tento sempre escolher as melhores opções. Já fui muito prejudicada por ajudar os outros mas curiosamente a única pessoa que foi capaz de praticar os actos mais crueis e proferir as palavras mais insensatas é um cristão praticante devoto e activista da sua igreja. Alguém que se refugia diariamente num abismo de mentiras para preservar a sua imagem junto da família e dos amigos cristãos. Pessoas assim estão num sofrimento constante e sentem um mal estar até quando dormem… a nossa sociedade está repleta de gente assim mas até essas pessoas têm de ser perdoadas para podermos seguir em frente e evoluirmos espiritualmente.

  11. Raiza disse:

    Engraçado quando falam em falação ao universalismo encontrado no livro. Isso me tráz a memória a passagem em Matheus 7:21 – Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Existem muitas pessoas que estão longe da religiosidade, e que tem um relacionamento muito mais intenso e profundo com Cristo. O livro trata de alguns conceitos que a igreja tenta nos passar como verdade, apenas para nos enquadrarmos nessa ‘sociedade’. A mudança que Cristo causa, vem com o mover do Espírito Santo, e nao com regras fúteis e mesquinhas que a igreja nos ensina. Eu sou seguidora de Cristo e faço parte de uma igreja, mas sempre tive plena consciência do quanto ela é HUMANA e do quanto é também POLÍTICA. Porque tudo isso faz parte da nossa natureza, e o livro aborda isso MUITO bem. Também achei a maneira como a trindade foi colocada especialmente interessante. Ninguém conseguiria ver Deus como uma mulher gorda, negra e que adorava cozinhar. Pude ver em ‘n’ sites abordagens acerca disso, com muitas opiniãos contrárias. Eu nao entendo o porquê. Acredito que essa seja a maneira mais clara de mostrar o preconceito instalado no coração até mesmo daqueles que dizem amar a Cristo. Quanto ao fato de falarem que o personagem principal (Mack) parecia um bebê chorão, e reclamava de coisas que nao faziam sentido é pura hipocrisia! Quantos de nós, criados na igreja, conscientes da soberania de Deus, ditos ‘CRISTÃOS’, julgamos o mover de Deus em nossas vidas, e nas coisas ao nosso redor. Quantas vezes nao nos perguntamos: Porquê,Porquê e Porquê,como crianças mimadas? Isso acontece SIM com todos nós, e vai ver você diz isso, porque não é pai. Pois se fosse, estaria mais próximo de enteder o sofrimento e a angústia que esse homem estava passando. Não existem livros bons e ruins quando se trata de vida cristã, com base bíblica, e uma visão clara da coisa mais importante que Jesus pregou: o amor. Existe livros que nos façam uma indentificação mais pessoal, mais profunda, ou nao. Esse livro com certeza ajudou muitas pessoas, cristãs ou nao, a voltarem a confiar em Deus, a se voltarem a um relacionamento verdadeiro, que não precisa de aparência. Quantas vezes Mack nao diz no livro: e quando eu voltar, será diferente? E a trindade sempre disse: Não, será ainda melhor! O livro nos ensina coisas que talvez já saibamos há anos, mas que por vezes precisamos ser lembrados. Meu coração doeu quando li o post falando que isso é Satanas confundindo as pessoas. Isso sim é blasfêmia. Um livro que trata da forma mais clara que eu já vi a trindade, o amor, o perdão, e o relacionamento com Deus. De fato, é muito dificil nos desapegarmos de tudo aquilo que aprendemos na EBD e vermos o relacionamento com Deus mais como é citado na bíblia, e menos como é dito pelas bocas a fora.

  12. hamilton disse:

    infelizmente,mts estão passan do por um eclipse espiritual,ao ler tal livro.admiro-me que tão depressa passa para outra doutrina.que visão tão surprendente a maluca. Posso ler tantos outros livros mais te-los como doutrina , jamais

  13. hamilton disse:

    continuando: É triste,qd vemos até pastores vendo uma luz fenomenal traduzido pelo livro e at[e seminários tbm,o que irão aprender novos lideres? a Biblia ainda para mim é tão sufuciente que nelas encontro todas as respostas

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