A desventura de ser bem-aventurado

O Sermão do Monte com as suas bem-aventuranças. Mal compreendido, mal aplicado, não ensinado (Mateus 5:1-11).

1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos;
2 e ele passou a ensiná-los, dizendo:
3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
11 Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.

É possível entrar no texto, navegar pelo contexto e tirarmos princípios bíblicos ensinados pelo próprio Jesus que vão além de uma ética moral e social? Conseguimos transpassar a indiferença das letras transformando adjetivos e advérbios em verdades concretas para a nossa vida?

Quanto ao contexto algumas coisas precisam ser entendidas:

  • Jesus falava a judeus momentos após a inauguração de seu ministério público depois de passar por vários lugares: Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia – Mt 4:23-25.
  • O ministério de Jesus no início teve foco público no povo de Israel. Logo a audiência do Sermão era predominantemente judaica.
  • A mensagem nessa fase era muito parecida com a de João Batista (embora alguns moderninhos não gostem disso): “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4:17). Israel tinha sido até ali infiel e insubordinada e precisava mudar sua atitude perante Deus (Mt. 5:12).

Jesus não estava falando a uma audiência evangélica no monte. Evangélicos não existiam no século I d.C. Transferir esses princípios e transformá-los em Teologia Social ou “ética do relacionamento” lendo o sermão com a mente do evangélico do século XX ignora os princípios básicos de Hermenêutica. Achata e diminui a o ensino de Jesus.

A mensagem de Jesus tinha endereço certo: judeus da Palestina (a multidão que o seguia) e sobretudo os fariseus e escribas da lei. Não somente estes mas também àqueles que os ouviam e seguiam.

Então o sermão do monte não serve ao cristão do século XXI? Se os destinatários são judeus e cidadãos do Reino vindouro então não precisamos nos preocupar com as bem-aventuranças?

Errado de novo! Cito ao menos três motivos (embora existam inúmeros outros):

1. Os cristãos assim como os judeus (ambos beneficiados pela Aliança Abraâmica de Gênesis 15) são os cidadãos do Reino de Deus da era da Igreja (ou pós João Batista). Logo, os princípios enunciados se aplicam a nós cidadãos do Reino (Dn 11:4;  Dn 7:18; Dn 2:44; Mt 21:43;Mc 1:15;At 14:22; Hb 12:28) embora o Reino ainda não seja visível (Jo 18:36;  Lc 17:20-21; At 1:6-7)

2. Há um tipo de gente (I Co 6:9; G5 :21; Ef 5:5) que não fará parte do Reino de Deus. Pessoas que decidiram não se submeter ao Senhorio de Jesus Cristo. Logo, o sermão do monte e as bem-aventuranças não se aplicam de forma alguma a estes.

3. Toda Escritura é util para o ensino, instrução e repreensão (II Tm 3:16). Logo, nada na Bíblia está apenas para cumprir tabela. Muito menos o maior sermão público registrado nas palavras do próprio Senhor Jesus.

Precisamos ser esse tipo de gente para qual fomos chamados.  Chamados para obras da luz, andando no Espírito, glorificando o Pai.  São os humildes de espírito que olham para Deus de baixo para cima em reverência chamando-o por ‘Aba’. Rebeldes e autônomos de Deus não tem lugar na morada do Pai, apenas os mansos que cooperam com Ele. Devemos caminhar assim espalhando misericórdia e paz por aí. Limpos de coração sem malícia ou dolo.

E nesse ponto a ética social é manca e insuficiente. Porque os bem-aventurados são um tipo de gente que atraem para si perseguição, agruras e choro. Num mundo cruel ter sede de justiça custará muito caro.  Ser bem-aventurado parecerá uma desgraça. Uma inspiração e motivação na ética-social ou em qualquer motivação humana é tão perecível quanto qualquer coisa terrena. A esperança no homem ou na sua obra será corroída pelas traças. Então, desesperados mandaríamos a ética, o bem-social e tudo mais às favas.

Nesse momento precisamos saber que seremos consolados como filhos de Deus. Precisamos ter os olhos fitos no Rei que retornará instalando finalmente o Reino em sua plenitude e a perfeita Justiça manifesta de uma vez por todas. Finalmente entenderemos que o trabalho não é nosso mas do Senhor.

E testemunharemos o que o apóstolo Pedro escreveu:

“Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça. Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis.”

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