Um agnóstico sensato

9 - junho, 2010

Até onde sei o João Pereira Coutinho é agnóstico. Apesar de incrédulo ele consegue ser mais sensato que muito pastor descolado.

O canibalismo é relativo

Li com interesse a “gaffe” do premiê da Nova Zelândia. Relembro os pormenores: o governo do país mantém negociações com as tribos indígenas para devolver territórios que esses povos consideram sagrados.Foi nesse contexto que o premiê John Key resolveu fazer uma piada, confessando-se aliviado por não ter que jantar com os povos Maori. “Se eu fosse jantar com eles”, afirmou Key, “o mais provável era ser eu a refeição.”

Ri com o comentário: hoje em dia, é muito difícil encontrar boas piadas sobre canibais. Mas depois reparei que o mundo não ria: os Maori, disseram especialistas diversos, deixaram de comer gente há duzentos anos. E a opinião de Key foi, no mínimo, “insensata”.

Fiquei em silêncio, acabrunhado com a minha insensatez perante a insensatez do premiê. E então percebi como são estreitos os limites do relativismo.

Todas as culturas devem ser avaliadas apenas pelos seus valores internos? Eis o credo do relativismo cultural, que rapidamente desagua numa forma extrema de relativismo moral: se todas as culturas apresentam valores distintos, não existe um padrão externo e universal a essas culturas capaz de as avaliar, condenar ou hierarquizar.

O próprio Montaigne, aliás, em ensaio clássico sobre o canibalismo, alertava: quem disse que os indígenas do Brasil são “selvagens” e “incivilizados”? Essas opiniões são apenas preconceitos que reduzem a diversidade do mundo a um único padrão explicativo. E nem mesmo o canibalismo horrorizava Montaigne, desde que o material das refeições (normalmente, meus antepassados portugueses) já estivesse morto no momento do espeto.

Respeito Montaigne. Mas gostaria que os discípulos do francês respeitassem até o fim o credo que eles próprios professam, o que raramente acontece. Quando um relativista discute o Ocidente e a sua história, ele não hesita em fazer juízos de valor que estão interditos, por exemplo, em relação aos zulus; ou aos aborígenes australianos; ou aos índios brasileiros. Os zulus, os aborígenes e os índios devem ser compreendidos na sua singularidade, mas nunca condenados. O Ocidente não deve ser compreendido; apenas condenado.

Existe aqui um erro conceptual da maior importância. Porque se nenhuma cultura pode ser avaliada externa e objetivamente por um padrão universal, então não existe qualquer legitimidade para avaliar ou condenar aquela região do globo que se convencionou chamar de “Ocidente”. Condenar o imperialismo do Ocidente, por exemplo, e mesmo as suas práticas mais desumanas (como a escravatura) será tão abusivo como condenar o canibalismo dos índios. Ou dos Maori.

Se as patrulhas exigem silêncio ao premiê da Nova Zelândia sobre a história canibal de terceiros, seria bom que pensassem duas vezes antes de fazerem ruído sobre a história e as práticas das “tribos” do Ocidente. Quando tudo é relativo, tudo é perdoado.

Inclusive o pastor da mesa branca no post abaixo.

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Um show de Truman

2 - dezembro, 2008
Nosso mundo é recheado de gente besta! Necessitados, mas bestas!
Retirado da Folha de São Paulo na URL:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u473451.shtml
Em 01/12/2008
A síndrome de Truman

A epidemia do século 21 já tem nome: “Síndrome de Truman”. O nome pertence a filme de 1998, “The Truman Show/ O Show de Truman”, com Jim Carrey no papel principal. Não lembram? Eu lembro: o personagem de Carrey era um simpático vendedor de seguros que, gradualmente, descobre a fraude existencial que o envolve. A sua vida, desde o berço, é apenas um gigantesco “reality show”, filmado por câmeras ocultas 24 horas por dia. E todas as pessoas que o rodeiam –mulher, família, vizinhos, amigos e inimigos– são meros actores contratados para representarem seus papéis.

O filme termina em registro heróico, com Carrey a libertar-se do pesadelo, ou seja, abandonando o estúdio onde viveu encerrado (e filmado) durante décadas.

Acontece que o pesadelo já emigrou para a realidade. Leio agora na imprensa do dia que cresce assustadoramente o número de pessoas que acredita genuinamente que a vida não lhes pertence. Pertence a um produtor televisivo que montou uma gigantesca ilusão em volta. Como no filme de Jim Carrey, esta gente-se sente-se vigiada por câmeras imaginárias e olha para as respectivas vidas como se apenas estivessem a cumprir um roteiro pré-escrito.

Não confiam na família. Não confiam nos amigos. Não confiam em ninguém. E há mesmo casos de tentativas de suicídio por criaturas transtornadas que não aguentam “continuar” no “show”. Uma das histórias mais pungentes pertence a um anónimo norte-americano que, cansado de “representar”, entrou num edifício do governo federal e implorou, de joelhos, para que desligassem as câmeras e terminassem com o programa. Ele queria, simplesmente, sair.

E os médicos? Os médicos têm uma palavra importante, a começar pelos psiquiatras. Mas, como os próprios admitem, o caso não é simples de resolver. Desde logo porque eles próprios são vistos pelos pacientes como parte do engodo. Os médicos não são médicos. São atores, vestidos de bata branca, que tentam convencer o doente de que ele está doente.

Não pretendo levantar polémicas inúteis. Mas, confrontado com a epidemia, eu próprio duvido da doença dos doentes. E pergunto, inteiramente a sério, se eles não serão as únicas pessoas lúcidas no meio da loucura reinante.

Um pouco de história talvez ajude: durante séculos, a posição que ocupávamos em sociedade era determinada pelo berço em que nascíamos. Nascer no berço errado, em circunstâncias de pobreza material e cultural, era meio caminho andado para uma vida igualmente pobre e lúgubre. Existem todas as exceções do mundo, claro. Mas as exceções apenas servem para comprovar a tese: a nossa posição em sociedade era uma questão de sorte, não de mérito.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, e o enterro do Velho Mundo que o conflito arrastou consigo, tudo mudou. O berço continuou a ter palavra importante. Mas não mais decisiva. O mérito passou a determinar o nosso lugar em sociedade. Em teoria, e sobretudo na prática, seria possível, ao filho de um pobre, entrar nos salões de um rico. Bastava, para isso, que o pobre ganhasse o dinheiro necessário para os comprar. As nossas sociedades são a prova provada de que a meritocracia vingou e que o “self-made men” derrotou grande parte dos preconceitos de classe.

E hoje? Hoje, como escreve Toby Young em recente ensaio para a revista “Prospect”, a era meritocrática foi enterrada. Depois do berço e do mérito, chegámos à era da celebridade. Podemos nascer no berço certo; podemos até subir a corda social com os nossos próprios pulsos, provando o nosso valor intrínseco; mas se não somos “famosos”, ou seja, se não alimentamos o voyeurismo coletivo em que vivemos, não somos rigorosamente nada. Vivemos em sociedades mediatizadas e massificadas. E numa sociedade mediatizada e massificada, é o anonimato, e não a pobreza ou a incompetência, que pesa profundamente sobre a espécie.

Não é de admirar, por isso, que uma parte crescente de seres humanos se sinta cansada do circo instalado; se sinta cansada, enfim, de um mundo de celebridades ocas que, na verdade, parece um “reality show” permanente. Eles imploram para sair do espetáculo na impossibilidade de o derrotarem.

Loucos? Não sou médico. Sou apenas um colunista disfarçado de médico. Mas desconfio que existe mais sanidade na loucura dessa gente do que em todos os “reality shows” que rodeiam as nossas vidas.

  João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha OnlineE-mail: jpcoutinho@folha.com.br
Site: http://www.jpcoutinho.com 

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Diogo, o Terrível

14 - maio, 2008

Eu sei que pode não parecer apropriado, mas gosto de algumas coisas que o Diogo Mainardi escreve. Abaixo um link de uma entrevista com ele feita pelo João Pereira Coutinho:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u369381.shtml

Apenas um trechinho da entrevista:

Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.