Passo #5: Checklist liberal – você ainda acredita no Deus soberano e poderoso?

9 - outubro, 2010

“O primeiro pressuposto teológico que ruiu foi o da Providência”
Ricardo Gondim – sacerdote tupiniquim do Teísmo Aberto

Na metade de nossa caminhada algumas coisas são inadmissíveis. Um ateu-evangélico no quinto passo já não é inocente e tolo a acreditar em tudo que lê na Bíblia. O ateu-evangélico descolado já deve ter idéias claras sobre antigos conceitos que a sua igreja dizia serem bíblicos.

Se ainda está incerto sobre o seu êxito faça o pequeno checklist liberal abaixo e certifique-se de que assim como nosso líder-mestre Gondim, a fé no Deus Todo Poderoso e Soberano é coisa para tolos que SÓ crêem na Bíblia e nunca se emocionaram com Nietzche e Leonardo Boff. Coisa de gente fina e entendida!

1. Para você os eventos de Gênesis 1 a 11 são:
A. Narrativa histórica da criação e da história do homem.
B. Uma peça literária que faz parte da mitologia judaica.
C. Uma descrição simbólica e figurada de como Deus criou a Terra e o homem.
D. Esses capítulos contém verdades espirituais sobre o homem mas não devem ser levados historicamente a sério.

2. O que é a Bíblia para você:
A. Uma porção de livros escritos durante a história que contém a Palavra de Deus.
B. A Palavra de Deus escrita por homens inspirados por Ele contendo tudo que precisamos para viver.
C. Um conjunto de escritos antigos que foram coletados e editados arbitrariamente pelo homem sendo impossível verificar qualquer autenticidade e veracidade de autores e datas.
D. Escritos que contém ricas e profundas verdades a cerca de Deus e do seu relacionamento com o homem e precisam ser entendidas à luz da Sociologia, Filosofia e outras ciências humanas.

3. Por que acontecem coisas ruins no mundo?
A. Porque o homem foi criado para fazer o bem mas optou por fazer o mal.
B. Por causa do homem que se rebelou contra Deus, sendo que este nada pode fazer a não ser interpelar pelo mesmo.
C. Por causa do pecado de Adão e Eva que Deus soberanamente permitiu que entrasse no mundo.
D. Porque o homem fez coisas ruins durante toda a História e logo está abandonado a sorte de seus atos.

4. Como você se sente com a afirmação “Deus sabe de tudo”?
A. É ofensiva porque significa que Deus sempre soube do Holocausto e dos massacres de Ruanda  e nada fez para impedi-los.
B. Libertadora porque significa que Deus cuida de nós.
C. Ilógico porque um Deus que sabe de tudo jamais permitiria que o mal entrasse no mundo.
D. Ilógico porque se soubesse de tudo me ajudaria um pouco mais aqui na Terra.

5. Qual das publicações abaixo foi a sua última leitura?
A. Algum livro da série Cinco Linguagens do Amor.
B. Algum livro dos autores: Philip Yancey, Brennan Manning, Ed René Kivitz, Brian Mclaren, Rob Bell.
C. Veja/Época/Folha de São Paulo/Metro.
D. A Bíblia.

6. O livro do Apocalipse é:
A. Revelações a cerca do que acontecerá nos últimos tempos revelando a ira e juízo final de DEUS sobre os ímpios e a redenção final dos eleitos.
B. Um conto mitológico do primeiro século D.C. muito comum naqueles tempos.
C. Uma história cheia de simbologias e figuras que está na Bíblia sabe-se lá por quê.
D. Pode ser entendido de qualquer forma menos como um julgamento divino porque afinal Ele é amor.

***

Agora vem aquele gabarito utilizando o Método Capricho de Pesquisa (muito usado por psicólogos e gurus):

1 – A(1); B(4); C(2); D(4)
2 – A(2); B(1); C(4); D(2)
3 – A(2); B(4); C(1); D(4)
4 – A(4); B(1); C(4); D(2)
5 – A(2); B(4); C(2); D(1)
6 – A(1); B(4); C(2); D(2)

Some os pontos para cada questão e confira o seu grau de ateísmo evangélico!

Acima de 20 pontos: você tem coragem mas passou do ponto. Ficou muito ateu e não sobrou cristianismo. Levou a sua inquietação e questionamento a frente de tudo e todos. Tem coragem de tomá-los às últimas conseqüências libertand0-se de preceitos, dogmas e do próprio Senhor Jesus Cristo. Continue assim do jeito que o diabo gosta!

De 15 a 20 pontos: está no caminho certo e será um ateu-evangélico conceituado. Consegue desfilar pela Filosofia, Psicologia, Sociologia e outras “ciências” humanas mas sempre as pincela com um pouco de Bíblia e jesus para dourar o ateísmo-evangélico. Conseguirá proeminência nos meios acadêmicos seculares ainda pertencendo às denominações evangélicas mais importantes do Brasil. Os outros cristãos descolados ao redor sempre o olharão com um grau de maravilhamento. Continue fazendo cara de conteúdo.

De 7 a 14 pontos: provavelmente ainda crê na Bíblia mas aceita e engole outras teorias que o antiquado do Paulo chama de fábulas e rudimentos do mundo. Gosta de ler salmos e ouvir as músicas da sua igreja assim como consome os livros da Editora Mundo Pagão Cristão. Já leu ou consumiu idéias de publicações como “As Cinco Linguagens do Amor”, “Outra Espiritualidade”, “É Proibido”, “A Cabana”, “O Evangelho Maltrapilho” e outras publicações que fazem parte da bíblia do ateu-evangélico.

6 pontos: você fez o gabarito inverso e fracassou na tentativa de ser descolado. Para você tenho duas notícias:

1. Apesar de ainda guardar a Palavra de Deus você nada mais é que um pecador miserável que carece da graça de Deus. Senão fosse por Ele estaria em maus lençóis.

2. Espero que ainda se lembre disso. Caso o contrário, sugiro o checklist do fariseu

Anúncios

Teodicéia: BLARGH

18 - janeiro, 2010

Pronto! Um desastre horrível e as pessoas ficam questionando a Deus, seu poder e soberania. Se você quer atribular seu coração ao invés de se compadecer com a dor dos haitianos, leia a coluna mala sem alça da Folha.

Ao menos o autor do texto é um  jornalista ateu e não um proeminente pastor de uma igreja batista ou da assembléia de Deus infelizmente ainda ouvido por muitos:

14/01/2010
Deus e a terra

Grandes catástrofes naturais como a que se abateu sobre o Haiti constituem uma espécie de experimento teológico natural. Não é necessário PhD em filosofia para colocar-se a pergunta que não quer calar: se existe um Deus onisciente, onipotente e benevolente, como ele pôde produzir –ou pelo menos permitir– tanto sofrimento?
O problema da teodiceia, que assombra os filósofos há séculos, já foi aplicado a movimentos de placas tectônicas. Em fins do século 18, época em que o hoje miserável Haiti ainda era a “pérola das Antilhas”, a mais rica colônia do Novo Mundo, Voltaire e Rousseau se engalfinhavam na célebre polêmica do terremoto de Lisboa, que já explorei em outras colunas, mas retomo aqui para que a tragédia haitiana pelo menos nos forneça material de reflexão.
Em 1755, mais precisamente às 9h40 do dia 1º de novembro, um grande sismo atingiu a cidade de Lisboa, então a quarta maior da Europa. Era Dia de Todos os Santos e, por isso, a maioria dos moradores estava na missa. Muitos morreram sob os escombros de igrejas que ruíram. As áreas baixas da cidade foram rapidamente engolidas por ondas gigantescas. Como se não bastasse, seguiu-se um terrível incêndio, que destruiu boa parte do que havia sido poupado pelo tremor. O fogo durou seis dias. O total de mortos ficou entre 30 mil e 70 mil.
Além dos alicerces de Lisboa esse megassismo fez tremer o fervilhante mundo intelectual do século 18. Vinte e três dias após a tragédia, Voltaire, o pseudônimo de François-Marie Arouet (1694-1778), publicou seu “Poema sobre o Desastre de Lisboa”, cujo subtítulo é: “ou o exame do axioma: ‘tudo está bem'”. De seus versos emerge uma boa dose de indignação: “É preciso dizer: o mal está na terra:/ Seu princípio secreto é desconhecido/ Do autor de todo bem terá ele partido?”.
Com efeito, a contradição entre a ideia de um bem absoluto e o mal visível é conhecida desde a Antiguidade. Atribui-se a Epicuro o seguinte dilema: Se Deus é bom e onipotente, não poderia haver mal sobre a Terra; havendo, ou Deus não quer acabar com o mal –e não é benevolente– ou não pode fazê-lo –e não é onipotente. (Poderíamos, é verdade, reduzir o dilema a um problema de linguagem e, portanto, a um falso paradoxo: a questão é insolúvel porque foi mal formulada; não posso exigir nem de um Ser Supremo que aja contraditoriamente. Mas, com essa interpretação, perderíamos toda a graça do debate metafísico).
A dificuldade levou teólogos e filósofos cristãos a reduzir o mal a uma aparência. Quando achamos que algo representa o mal, na verdade, estamos fazendo uma leitura equivocada do fenômeno. Nós, humanos, não podemos, como Deus, enxergar as coisas em suas reais dimensões. Não podemos dizer que alguém sofre injustamente se não conhecemos, como Deus, todos os seus pecados. Tampouco sabemos quais são os planos divinos para o futuro. O que hoje parece o mal poderá ser compensado no futuro. Depois, não devemos nos limitar ao plano individual. Deus pensa grande –ocupa-se de toda a Criação–, e certos sacrifícios são necessários.
O texto de Voltaire é, na verdade, uma crítica a sistemas que postulam um certo otimismo filosófico. Os alvos são o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e, em menor escala, o inglês Alexander Pope (1688-1744), que versificou e popularizou ideias do alemão. Num resumo extremamente grosseiro, o filósofo tedesco leva o racionalismo teológico às últimas consequências e postula que o mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis. O Deus sábio e necessário –e, portanto, existente–, dentre todos os mundos possíveis, criou o melhor de todos. Tudo está bem.
Quem leu o “Poema” e não gostou foi Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). A resposta veio em 18 de agosto de 1756 sob a forma de carta, a “Lettre sur la Providence”. Aí o bom Jean-Jacques, para isentar o bom Deus e a gentil mãe-natureza de toda a culpa, prefere atribuí-la aos homens. Como bem observa o cidadão genebrino, não foi a natureza que, numa área relativamente exígua “reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares”. Ele vai ainda mais além e pergunta-se “quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?”.
Embora hoje pareça óbvio que as consequências de um terremoto –ou mesmo de um furacão, uma enchente e vários outros desastres “naturais”– são inseparáveis do tipo de sociedade na qual ocorre a tragédia, essa era uma ideia original no século 18. Vários autores veem aí o surgimento da abordagem sociológica desse tipo de fenômeno.
De um modo geral, concordo com Voltaire e Rousseau. Sei que, com essa confissão, corro o risco de ser acusado de tucano, mas não creio que as duas leituras sejam mutuamente excludentes. É perfeitamente possível concluir que erros na ocupação do solo respondem por boa parte dos estragos provocados por terremotos e, ao mesmo tempo, que a ideia de uma Providência benfazeja e onipotente apresenta problemas.
O interessante aqui é que, quaisquer que sejam nossas inclinações, não ficamos indiferentes a tragédias como a do Haiti e rapidamente nos colocamos a procurar respostas. De algum modo, precisamos encontrar explicações –e de preferência culpados– que julguemos satisfatórias para tamanho desperdício de vidas. Daí que buscamos identificar padrões, sejam eles herméticos, como no caso dos insondáveis planos de Deus, ou plenamente racionais, como na hipótese de mau uso do terreno. Se há uma ideia que se nos afigura insuportável é a de que tanta destruição possa ser apenas fruto de um movimento aleatório e imprevisível. É justamente para combater a ideia de que o acaso (e com ele a ausência de propósito) está no comando que, suspeito, criamos a noção de Deus.